sábado, 16 de julho de 2016

O transplante - Parte Final.

Índice
6/3 Qualquer coisa para fugir do tédio...A madrugada de sábado para domingo foi um pouco tensa. Muita gritaria, um paciente acabou atacando uma enfermeira e houve uma correria no corredor acompanhado de confusão e mais gritaria.
Após a confusão, a enfermeira entrou de madrugada para tirar meu acesso central, não doeu nada, é tão fininho que de verdade, se não fosse o curativo puxando meu cabelo, eu nem notaria ele lá. Bom, retirar o acesso central era um bom sinal, fiquei feliz, apesar de meia cabreira por ter sido de madrugada, mas já tinha entendido que lá não existe hora para acontecer os procedimentos tipo exames/retirada de sonda/acesso/etc.E depois de tudo isso, claro que não foi fácil pegar no sono e quando ele finalmente chegou, acabou chegando junto também a técnica para colher exame de sangue. Resultado: Não dormi.
Segui mais uma vez toda rotina matinal: Fui me pesar, tomei café (por um milagre apareceu um pão com manteiga), fui para o banho, tomei todos os imunossupressores e fizeram minha checagem de pressão/febre/glicose. Tudo isso e ainda eram 9h da manhã.
Fui dar uma volta, ver quem eram as técnicas do dia e ver se meu médico estava lá. Descobri que meu médico não viria neste dia, então provavelmente não teria nenhuma novidade significativa.
Era 10h quando uma senhorinha muito simpática pediu licença para entrar no quarto e então ela convidou eu e a Cris para ir num culto que seria realizado no 8º andar.
Quem me conhece sabe que não tenho religião, apenas acredito em Deus e minha fé é "caseira", rsrs. Mesmo assim, aceitei o convite da senhorinha, queria sair um pouco daquele lugar e literalmente foi somente essa oportunidade bateu na minha porta. A senhorinha me acompanhou até o 8º andar e depois não vi mais ela. Quando entrei no auditório que iria acontecer o culto, ele já estava bem cheio, sentei na frente de uma mãe com duas crianças. Foi interessante, cada pessoa daquele auditório era de um lugar diferente do HC e portanto, tinha uma patologia diferente. Quando olhei para o senhor que iria comandar o culto (desculpem, não sei como nomear isso, rsrsrs), eu me assustei. Juro que achei que estava na minha frente o Robin Willians e para ser o Patch Adams só faltava o nariz, já que ele estava de jaleco branco. Meu Deus, pena que estava sem o meu celular, senão faria questão de tirar uma foto, o senhor é idêntico ao Robin, impressionante.
Passado esse impacto, ele iniciou o culto e seria assim, ele cantaria e tocaria um violão e nos intervalos de cada música ele falaria algo brevemente. Uma das musicas me chamou a atenção, foi a mesma que minha vizinha teima em ficar cantando com toda força do pulmão dela e justamente nos momentos que estou tentando estudar, é impressionante, parece até que ela sabe, rsrs. Voltando ao culto, dada essa coincidência da música eu resolvi prestar mais atenção na letra e a danada da musica é bonitinha até. Acho que o nome dela é BARQUINHO, não tenho certeza.
Enfim, da metade do culto até o final, as duas lindas crianças que estavam atrás começaram a chutar meu banco... chutou uma... chutou duas... chutou três vezes... e assim, eu ia para frente e os pontos da cirurgia acabavam dando umas fisgadas. O engraçado é que geralmente nessas horas eu já iria me levantar e dar uma bronca na mãe que não controla os filhos dela, só que dessa vez eu fiquei na minha, ainda mais depois que a mãe chamou um deles de Lucas. Eu tenho um loooooongo histórico com crianças chamadas Lucas, aí já entendi que tinha que aguentar e ficou por isso mesmo.
Quando o culto acabou, não achei a senhorinha, ela havia me dito que me acompanharia de volta. Eu já estava apertada para ir no banheiro, resolvi não esperar e voltei sozinha mesmo.
E praticamente depois disso o domingo foi morno, até claro, chegar a noite.
Quando eu estava quase indo dormir uma enfermeira entra no quarto com uma bomba de infusão e um soro de 1 litro com medicamento. Eu pensava que era para Cris, já que as vezes ela tomava algum medicamento nessa bomba. Só que dessa vez era comigo. O medico receitou potássio porque o meu estava muito baixo. Claro que fiquei com medo, porque até eu descobrir pra que era, a Dna. Neura marcou presença mais uma vez.
Eu tive que ficar 4h ligada nessa bomba de infusão, era 2h da manhã quando finalmente terminou e quando pensei que iria dormir, a enfermeira chegou com mais 1 litro, dessa vez era só soro. Meu sódio também estava baixo. E mais uma vez seriam 4h para infundir esse soro, já nos primeiros minutos senti minhas mãos incharem e minha perna direita também, do joelho para baixo. Chamei a enfermeira, esta chamou o plantonista e este examinou e ficou por isso mesmo. Dada as 4h, já tinha que começar com toda a rotina novamente. Eu só consegui dar uns cochilos.
Conclusão: Nunca sentem na frente de crianças, rs.


Resumo técnico do dia:
- Sem dores.
- Pontos vazando muito pouco, mas ainda vazando.
- Perna direita levemente inchada.
- Tomei potássio e sódio.
- Suspenderam o diurético injetável, irei tomar somente em comprimidos.


7/3 É hora de dizer tchau...
Após a rotina matinal e a preocupação sobre as bolsas de potássio e sódio que foram infundida, eu notei que as mãos desincharam, contudo, minha perna direita, principalmente o pé, estava bem inchadinho.
Minha mãe havia vindo pela manhã, adiantado a visita que é das 15h até as 17h, então era 12h e nada mais iria acontecer. Como ninguém havia falado de alta hospitalar, ela foi embora.
Quando foi 15h o cirurgião que fez o transplante, o Dr. Éder (acredito que não seja com H), apareceu e quis me examinar e perguntou se eu tinha assinado um termo no momento do transplante, eu disse que não, mas na verdade tinha, é que não lembrava. Então ele todo feliz me deu umas folhas para assinar e perguntou se eu estava feliz em saber que iria para casa. Eu fiz cara de coxinha pra ele, eu nem sabia que estava de alta e disse isso para ele, então ele disse que da parte dele eu já estava de alta, mas ele iria confirmar com o Nefrologista.
Algumas horas depois chegou a confirmação e começaram a me preparar. Pediram para eu chamar um familiar, tive que conversar com a nutricionista e só faltei implorar para meu médico vir me esclarecer umas dúvidas, que com todo tempo livre, fiz uma lista de perguntas para não esquecer nenhuma.
Com tudo resolvido, meu irmão chegou para me buscar e tivemos uma breve aula de como tomar os medicamentos em casa e alguns outros cuidados básicos como lavar sempre a mão, evitar contato com pessoas doentes e jamais atrasar com os horários dos remédios.
Com o acesso venoso retirado, um saco de remédios e um monte de bagulhos em duas sacolas eu me despedi da Cris (foi meio emocional demais essa parte) e parti para casa.
A volta para casa foi muito esquisita. Foi bem diferente do que eu havia imaginado que seria, tanto que acabei chorando no carro e dando uma "patadinha" no meu irmão.
Ao chegar e ver meus pais e a Duda (minha cachorra), eu senti uma responsabilidade imensa em fazer tudo isso dar certo, eles estavam felizes, só que por algum motivo, eu não estava tão feliz assim.
Sentei um pouco na sala e meu pai reparou na minha perna e perguntou porque estava tão inchada, eu olhei e assustei, estava praticamente o dobro do inchaço do que quando ainda estava no hospital. Estava horrível, se achar a foto que tirei das minhas pernas eu coloco aqui numa próxima atualização.
Já era mais de 22h e eu queria ir dormir. Mas quem dorme tendo que correr pro banheiro a cada duas horas???
Conclusão: Despedidas são tristes e em hospitais é fácil se apegar nas pessoas.


Resumo técnico do dia:
- Pé e perna direita inchada.
- Livre de penduricalhos no corpo.
- Alta hospitalar!!!

quarta-feira, 13 de julho de 2016

O transplante - Parte 06.

Oficina-blog





04/03 - Hora de começar a subir...
Depois da aflição do dia anterior finalizada com felicidade ao conseguir urinar sozinha, eu fiquei muito mais tranquila, apesar de correr pro banheiro de hora em hora, foi de verdade uma alegria.
Eu fiz 6 anos de hemodialise e no ultimo ano não urinava mais, o que tinha que sair, só sairia na diálise, não tinha jeito. Com isso a bexiga foi atrofiando por não ser mais usada. Como ela ficou muito pequena, qualquer liquido que eu bebia em pouco tempo eu tinha que ir ao banheiro, porque ela enchia muito mais rápido que o normal por ter pouco espaço. O médico me orientou que conforme o tempo for passando a bexiga vai voltando ao tamanho normal e os intervalos de idas ao banheiro vão diminuindo.
O dia foi muito tranquilo, nenhum exame bizarro para fazer, só fiquei à toa no quarto, quando cansava ia caminhar ou conversar com os vizinhos de quarto. Como a Cris não havia passado muito bem a noite, tendo inclusive que tomar morfina, eu evitei ficar fazendo barulho e preferi ficar conversando com qualquer um que encontrasse do lado de fora.
Vi mais uma pessoa indo para o transplante. Um homem que acredito que tenha uns 50 anos, ele estava tranquilão, coisa de dar inveja, mas é isso, cada um reage de um jeito.
O dia demorou a passar, mas foi tão tranquilo que até tive sorte de receber uma janta comível, rsrs, e essa foi minha primeira refeição no hospital.
O meu médico passou cedo e finalmente me deu alguns valores, disse que minha creatinina de 9 (quando entrei para cirurgia), tinha caído para 7 após a cirurgia e agora estava em 5, que ele estava esperando mais uma queda sequencial para me dar alta e que tudo levava a crer que seria na segunda feira.
Conversando com as enfermeiras, uma me disse que o protocolo de alta hospitalar do HC para transplantados renais acontece quando o paciente apresenta 3 quedas seguidas de creatinina no exame e não apresenta nenhuma infecção ou dor aguda.
Já sabendo que iria passar o final de semana lá, eu relaxei, resolvi continuar seguindo as orientações da equipe. A noite chegou e eu consegui dormir razoavelmente bem.
Um detalhe que não posso deixar de citar é que todos os dias da internação eu alternava de humor, mas mesmo com boas noticias e sem praticamente dor alguma, eu ficava entre e triste e o muito triste.

Resumo técnico do dia:

– Foi o primeiro dia que não colheram nenhum exame de sangue.
– A queimação no estômago seguiu firme e forte, nenhum remédio era efetivo, melhorava por algumas poucas horas e depois retornava.
– Tentei ficar sem curativo, mas sempre que sentava tinha que tomar banho e trocar o avental, pois sujava um pouco, depois da terceira troca desisti e pedi para fazerem um curativo.

5/3 - Contrabando de comida...
Depois de toda saga, de ficar em uma gangorra emocional louca, o que mais estava incomodando no momento era a fome.
Eu aproveitei que meu irmão e minha cunhada viriam me visitar e pedi umas tranqueirinhas para comer. Não era nada demais, a maioria integral, é que não conseguia comer nada do hospital com exceção das bolachinhas e torradas.
Queria mesmo era um belo almoço, mas entrar com comida no hospital era quase impossível, além do que, comida fria ninguém merece.
Claro que minha peraltice teve efeito. Minha glicose aumentou e com isso me aplicaram insulina. Eu fui pega de surpresa, de repente aparece a enfermeira com a seringa e zap no braço. Por ter meu pai diabético e dependente de insulina, eu fiquei chocada, mas depois o médico me acalmou dizendo que a insulina era para baixar a glicose mais rápido, que não era indicado no momento eu tomar medicação oral para baixar a glicose.
Mas de coração, não me arrependi do contrabando, eu estava faminta e me senti até mais forte depois de comer algo com um pouquinho mais de sal. Eu que sempre tive a pressão arterial baixa, quando ficava sem se alimentar dava fraqueza danada.
Não aconteceu nada de muito significante no dia, as noticias são sempre as mesmas.
Resumo técnico do dia:



– O estômago deu uma melhorada, acho que era falta de comida, rsrs.


– Ter que beber muita água sem estar com sede é algo que estava difícil de fazer.


– Fiquei o dia inteiro sem curativo.



– O tédio começou a bater forte, já que não tinha absolutamente nada para fazer e os médicos não gostavam de ver a gente muito tempo na cama. O jeito foi ficar no corredor do lado de fora da ala do transplante, assim sempre dava para orientar as pessoas que estavam perdidas, alias, foi o que mais fiz nesse dia.

quarta-feira, 6 de julho de 2016

O transplante - Parte 05.

mulher-dúvida-interrogação-agencia-g8-



Olá pessoal.
Peço desculpas por ter interrompido as postagens, eu estou no ultimo ano da faculdade e conciliar o transplante + exames + consultas regulares + estudos, ocupou muito do meu tempo, como eu gosto de fazer as coisas o melhor possível, não conseguia dedicar atenção suficiente para meus relatos. Agora que estou de férias, vou tentar colocar em dia tudo que aconteceu.



03/03 - Aliviando umas coisas... Complicando outras...
Umas das muitas condutas pós transplante lá do HC é retirar a sonda no 5º dia pós cirúrgico, eu nem preciso dizer que acordei ansiosa achando que isso aconteceria logo pela manhã.
Quem me conhece bem sabe que eu simplesmente detesto todas as quintas-feiras, é algo meio "místico", mas tudo que pode acontecer de ruim comigo, geralmente acontece em uma quinta. Porém, desta vez tinha esperança de mudar esse padrão.
A manhã começou típica, verificação dos sinal vitais, ir me pesar, tomar os imunos, tomar café e banho.
Tudo isso e ainda era 9h da manhã, horário que geralmente começa a movimentação dos médicos pelos corredores.
Como de costume, estava sentada na cadeira até eu avistar meu medico e ele me avistar. O quarto que eu fiquei fica quase de frente para a sala onde os médicos se reúnem, então eu conseguia monitorar todos movimentos deles (a doida do 7º andar, hahaha). Acho que o meu médico percebeu e toda vez que passava não olhava pro meu quarto... "ignorada mode on" hahahahaha...
Eu torcendo para ele parar e me dar uma atenção para ao menos avisar que iram tirar aquele troço do meio das minhas pernas e fui completamente ignorada a manhã toda.
Chegou o almoço (pior que horrível) e nada de médico. Pra ajudar nenhuma enfermeira sabia se iriam "sacar" a sonda. Eu cansei de ficar no quarto e comecei a andar pelos corredores, me aventurei do lado de fora e fui pra ala da urologia, que é simplesmente divina, um luxo puro. Depois enjoei e fui para a ala da cirurgia vascular e para a ala da endocrinologia também. A titulo de curiosidade, no 7º andar são 5 alas, tem a Urologia, o Transplante Renal, a Nefrologia (que esta em reforma para ficar chique igual a urologia, então estava fechada), tem a cirurgia vascular e a endocrinologia. Fiquei vagando igual uma zumbi, arrastando o "cachorrinho" com a sonda de um lado para o outro.
Meu celular havia pifado, então estava sem comunicação, sem distração, sem coisa alguma para fazer, então vamos gastar o chinelo, cruzei com alguns desconhecidos, orientei vários perdidos e ouvi algumas breves historias.
A tarde chegou, eu cruzei com o meu medico no corredor, que só disse pra eu pegar leve na caminhada, quando eu ia perguntar da sonda, ele deu as costas (¬¬') e entrou no elevador.
Já havia desistido da ideia, estava escurecendo e finalmente as 20h quando a equipe de enfermagem trocou de turno, a enfermeira chefe apareceu e disse que iria sacar finalmente a sonda. *Fogos*, *Tiros de Canhão*, *Musica de Festa*.
Ok. Boa noticia. Só que... será que tirar essa geringonça dói? Pensei comigo mesma.
Aí eu não sabia se ficava feliz ou se ficava preocupada. E enquanto esperava a enfermeira trazer os aparatos a ansiedade aumentava. E se quando tirasse a sonda eu não conseguisse urinar sozinha??? E se ao tirar a sonda, desfizesse algo lá dentro? Tipo, entrei em modo neurótico extremo, aí já não queria mais tirar a sonda, hahahahahaha.
Depois de mais de uma hora de espera, finalmente chega o grande momento.
Eu tive que ficar deitada só que eu queria muito ver como era o processo pra tirar e o que tinha na parte de dentro. Foi um misto de medo e curiosidade, mas a curiosidade venceu e eu fiz um famoso pescoção pra ver, hahahaha... Só que foi muito rápido, numa piscadela e já estava livre daquele incomodo.
Depois que tirei a sonda eu queria mais era um super banho, porque pessoas, por mais que você se limpe o tempo inteiro, tome 20 banhos diários. VOCÊ SE SENTE SUJA. É uma porcaria isso!!!
Fui tomar meu banho feliz da vida, ahhhhhh liberdade!!! Maravilha!!! Só que então eu percebo, poxa, não tenho vontade de urinar, será que vai demorar para isso acontecer??? Aí claro, fiquei preocupada...
Percebam o monstro neurótico em que eu me transformei depois desse transplante, rsrs.
Já tinha passado umas 2h e nada de vontade de urinar, eu perguntava para Cris (coitada acho que cansou de ficar ouvindo minhas indagações, hahahaha), perguntava para enfermeiros, até para um médico que nunca vi na vida, tive que parar e perguntar, mais uma vez, todo mundo falando que era super normal, mas acho que Jesus poderia se materializar na minha frente e me falar que era normal que eu não ia acreditar, o fato tinha que acontecer para eu me acalmar.
Já estava dando quase 3 horas que estava sem a sonda, então senti uma leve dor na região da bexiga, corri pro banheiro rezando mentalmente para acontecer.
A partir do momento que me tiraram a sonda, deixaram no banheiro uma comadre e uma vasilha com meu nome, eu teria que fazer o controle de tudo que urinasse, não poderia perder nada. Olhar para aquela vasilha vazia estava me deixando angustiada.
Não consegui fazer nada. Eu sentei no canto do box do banheiro e comecei a chorar. Não só pelo fato de passar pela cirurgia ou de ser tudo desconhecido, eu estava emocionalmente desgastada. Ver pessoas doentes, pior do que eu via na hemodialise, pessoas que diziam que dariam tudo para estar no meu lugar e pensar que eu pensava o mesmo das pessoas que não fazem ideia do que um DRC enfrenta, como eu queria estar em casa estressada com os problemas comuns, mas não, estava lá sozinha, dentro de um banheiro, sem saber o que mais poderia vir pela frente. Medo, angustia, tristeza, eu baixei minha guarda e deixei todos esses sentimentos me levarem.
Fiquei alguns minutos no box, como se fosse o fim da linha, eu realmente estava sentindo isso.
Não no sentido que iria morrer, nem me importando naquela altura se o transplante não desse certo. De verdade se não desse, era só voltar para a hemodialise. O pior foi perceber o rumo que minha vida tinha tomado. Eu que nunca quis parar de fazer as coisas, quis trabalhar, estudar, quis evoluir mental e moralmente, já que a parte física não dependia mais de mim. Eu comecei a me questionar que nenhum dos sacrifícios que tinha feito nesses 6 anos valeram a pena. E que aquele momento não era o meu BOOM (um momento crucial de mudança de vida, tipo quando você compra uma casa ou é promovido para um cargo que estava lutando por ele há tempos... enfim, coisas que não acontecem sempre, que na verdade são momentos raros e preciosos).
Depois de bitolar em pensamentos trágicos, respirei fundo, me levantei, lavei o rosto me olhei fixamente no espelho e mandei um sonoro FODA-SE. Já estava lá, o que tivesse que acontecer, iria acontecer. Sai do banheiro de peito erguido (apesar de estar mentalmente ferida por dentro, jamais demonstraria isso, principalmente para desconhecidos). Fui dar mais uma volta no corredor e cruzei com uma menina entrando na ala do transplante, pois ligaram para ela naquele instante. Estava ela e mais cinco pessoas acompanhando ela. O olhar dessa menina era bem assustado e essas cinco pessoas que estavam com ela, eram só festa. Vi semelhança. Ali percebi que não era a única maluca.
Desfoquei da menina e continuei meu rumo aos corredores, que naquele momento estavam desertos. Após 30min caminhando, mais uma dor na bexiga, dessa vez, fingi que não tinha sentido nada, continuei caminhando. A dor foi aumentando cada vez mais, até chegar um ponto que estava bem forte a ponto de eu achar que deveria pedir um remédio. Claro que antes, um pouco contrariada, voltei para o banheiro. A Cris já estava dormindo, então tentei ser o mais silenciosa possível. Era aproximadamente 23:50 quando o milagre aconteceu. Finalmente consegui urinar sozinha, e até que não tinha sido pouco pra quem estava com a bexiga atrofiada, foram 200ml. Chorei novamente, dessa vez de alivio. Após isso, me preparei e fui dormir, amanhã seria outro dia. O problema, é que tive que acordar de hora em hora para correr no banheiro. Sim senhores, por minha bexiga estar pequena, ela enchia muito rápido. Eu praticamente não dormi.
Conclusão: Antes de corres atrás de um transplante, aprenda a meditar, porque autocontrole é algo essencial para não pirar no pós cirúrgico.



Resumo técnico do dia:
- Tirei a sonda.
- A queimação no estômago continuou e se tratando da parte física do processo, essa foi a coisa que mais incomodou até então.
- Não tive nenhum tipo de dor, além da queimação do estômago.
- Meu curativo continuou vazando um pouquinho.
- Fiquei andando pelos corredores o dia todo.
- O medico não passou, contudo, a enfermeira avisou que tudo estava dentro do esperado e em breve eu iria ter alta.