terça-feira, 12 de abril de 2016

O transplante - Parte 04.

mulheres-odeiam-em-homens-el-hombre


02/03 - Um dia de fúria...

Desde o dia do meu transplante o  meu intestino estava preso.
Medicamentos para dor costumam causar esse efeito e eu já havia reclamado com o medico que prometia que iria prescrever um remédio para ajudar, mas até então, não havia tomado nada.
Eis que acordo com aquela sensação de urgência, mas para quem está a tanto tempo assim sem se resolver, só podia esperar pelo pior.
Do momento que eu acordei até a hora do almoço, foram várias tentativas inúteis, estava ressecada demais. Pedia para as enfermeiras ajuda, algum remédio, até mesmo algum procedimento que pudesse me ajudar, tamanha era a dor e a vontade. A manhã inteira ouvi que o medico iria prescrever algo, mas nada apareceu para ajudar. Até que perdi a paciência e comecei a esmurrar a porta do banheiro, foi proposital, estava me sentindo negligenciada ali. E para ser honesta, esse dia eu realmente fui. Ninguem deu importância.
Após começar causar dentro do quarto, resolveram prestar mais atenção em mim, o que é super chato, ter que chegar a esse ponto para ser atendida.
Em 15 minutos apareceu o tal remédio. Um xarope que me pareceu muito inocente para resolver o problema.
Tomei o xarope meio desacreditada e continuei ali, monopolizando o banheiro nas minhas vãs tentativas.
Sem brincadeira, uns 10 minutos depois que tomei o tal xarope inocente, eu senti uma movimentação no abdome, parecia que tinha um alien dentro da minha barriga. O pior é que a cada movimentação, eu sentia forçar os pontos da cirurgia. Essa movimentação foi aumentando de intensidade e ali eu percebi que o estrago ia ser grande, rsrsrs.
Em menos de uma hora que havia tomado o xarope inocente, estava suando frio, tentando resolver e a dor era tão grande, que pensei que jamais iria conseguir. A Cris querendo me ajudar, me ensinou até uma simpatia, rsrs, eu estava topando qualquer coisa para resolver isso de uma vez.
Depois de suar muito (meu avental ficou lavado de suor) e forçar por muitos minutos, finalmente consegui. Mas foi com certeza a maior dor que senti durante a minha internação. Depois da primeira vez, meu intestino desembestou. Chegou o almoço, chegou o lanche da tarde e eu ali presa no banheiro, não conseguia sair, hahahaha...
Minha mãe chegou para visita e teve que ficar no banheiro comigo, porque eu simplesmente não saia de lá, não conseguia.
Depois de algumas horas e vários banhos, o meu intestino resolveu descansar, mas já era final de tarde quando consegui sair do banheiro. Curiosa, fui me pesar. Havia perdido 3 dos 6 quilos que havia ganhado desde o transplante. Estava exausta e morrendo de dor já que havia forçado muito os pontos. De verdade, acho que as linhas eram de Adamantium para não terem estourado.
Minha mãe já havia ido embora e eu estava sem graça com a Cris por ter monopolizado tanto o banheiro, resolvi ficar andando pelos corredores só para não ter que ficar constrangida perto dela.
Neste dia não consegui fazer a medição da urina, então não fazia ideia de como estava o rim. Angustiada, fiquei esperando o médico dar noticias, queria saber como estava os exames que eles sempre colhem pela manhã. Depois de muita espera ele aparece e diz o mesmo discurso "esta tudo dentro do esperado, a creatinina vem caindo".
Em alguns pontos da cirurgia, ainda estava vazando um pouco de sangue e uma água clarinha e sem cheiro, como nunca havia passado por uma cirurgia desse porte, estava morrendo de medo de ser uma complicação grave. Já era para eu ficar sem curativo, mas devido a esse vazamento, eu tinha que trocar o curativo de tempos em tempos, o que era ruim, porque além dos pontos, as fitas do curativo limitavam meus movimentos.
A janta chegou, horrível para variar, deixei de lado e peguei somente a fruta.
Já estava me sentindo fraca, o fato de não me alimentar direito só piorou a situação.
Como a dor estava forte, chamei a enfermagem e pedi um remédio para dor. Elas sempre pedem para numerar a dor de 1 a 10, eu disse 11, realmente queria um remédio forte. Em pouco tempo, trouxeram um soro com a medicação. Como sabia que iria dormir com esse remédio, já tinha me preparado para só acordar no dia seguinte. E assim aconteceu.



Resumo técnico do dia:
- Ainda com queimação no estômago, talvez seja falta de alimentação + medicamentos.
- Não tive dor relacionada a cirurgia.
- Meu curativo vazou bastante, principalmente quando fiquei sentada.
- Não andei muito hoje.

quarta-feira, 6 de abril de 2016

O transplante - Parte 03.

1216786068jF2v5HX

01/03 - Um passo por vez
A terça chegou e como de costume fomos acordadas (eu e a Cris) às 6h da manhã. Aferida a Pressão, batimento cardíaco e o destro, ficamos em paz novamente. Geralmente voltaria a dormir até as 8h quando a enfermeira aparece com os imunossupressores, mas dessa vez eu estava mais animada.
Sem dores significativas, apenas algumas fisgadas quando sentava ou levantava da cama, eu fiz minha primeira caminhada para me pesar pela primeira vez, toda manhã antes de tomar café era necessário andar até a balança para se pesar. Como já tinha pegado o esquema com minha irmã de quarto, a Cris, peguei o suporte de soro e coloquei a sonda pendurada nele e tentei dar meus primeiros passos sozinha. A sensação quando muda a sonda de lugar é muito esquisita, quanto mais próxima do chão ela ficar mais confortável é, mas até eu entender isso, eu fiquei andando com essa sensação bizarra, como se a bexiga estivesse cheia. Como estava na cama há 3 dias praticamente, eu comecei andar como se tivesse bebido todas na noite anterior, estava totalmente sem equilíbrio, mas fui firme no objetivo de ir me pesar. Meu quarto ficava a uma distancia considerável da balança, dando passinhos de formiga, cheguei na bendita e subi. O primeiro susto do dia, eu havia ganhado 6 quilos durante o transplante.
Voltei pro quarto cambaleando, o rim transplantado parecia que pesava uns 3 quilos, a sensação de ficar em pé com algo dentro da barriga que não estava lá antes é difícil de definir, eu sempre que dava um passo parecia que iria tombar para frente.
No quarto havia apenas uma cadeira, então eu e a Cris começamos a revezar nela, mas como eu ainda não estava com muita confiança para ficar sentada, eu preferia levantar toda cabeceira da cama e ficar sentada nela. Isso chateou os médicos que diziam que tinha que sentar na cadeira e não ficar só na cama... Então que ao menos colocassem DUAS cadeiras no quarto, né?



A mocinha (não peguei o nome dela) que colhe o exame de sangue logo cedo apareceu, foi feita a coleta de 6 tubinhos e uma seringa para gasometria.
Meu destro começou a ser medido 4x ao dia, minha glicose estava começando a alterar. Segundo todo os profissionais de saúde que conversei (médicos, enfermeiras e técnicos), isso era devido aos imunossupressores, porém, sempre que interno minha glicose sobe, então eu fiquei com um pé atrás com isso.
Antes do café as técnicas aparecem para trocar a cama e fornecer o necessário para tomar banho e dar os imunos. Eu mais que depressa peguei minhas coisas, o avental limpinho e corri para o banheiro, não ia deixar ninguém dar banho em mim. Contudo, ainda estava com receio de ficar sozinha dentro do banheiro, eu não tinha ficado muito tempo em pé, sentia minhas pernas fracas.
Com fé e coragem, entrei no chuveiro. Com ajuda da agua quente fui removendo o curativo. Mais uma vez uma aflição tremenda, conforme o micropore ia descolando da pele, eu olhava para o teto tentando ganhar coragem para puxar aquele negocio de uma vez. Mas não consegui, ele caiu sozinho. Percebi que em apenas uma parte pequena do curativo estava suja de sangue.
O banho foi bem esquisito, o chuveiro era bom, mas mesmo depois de ter terminado eu não me senti limpa.
Vesti o avental errado e saí do banheiro para pedir ajuda para alguém arrumar a caca que fiz com o avental. Minha sorte é que o avental era grande, então cobriu tudinho.
Sentei na cadeira enquanto a Cris descansava na cama, não gostei da sensação, parecia que meus pontos iriam estourar. Fiquei esperando meu medico passar para ele ver que estava sentada e depois que ele passou, corri para a cama, rsrsrs.
O almoço veio, horrível, dispensei, peguei a maçã da noite anterior que não havia comido e tracei ela.
Quando se esta no hospital não se tem muito o que fazer, é bem entediante mesmo. Por algum motivo ainda estavam me dando medicamentos fortes para dor, então eu tirava alguns cochilos prolongados.
O começo da noite veio e como prometido, a fisioterapeuta apareceu. Dessa vez eu topei caminhar com ela.
Ela pegou leve até, eu pensei que ela iria caminhar comigo pelos corredores afora da ala do transplante renal, mas eu andei somente pela ala mesmo. Ela disse que ficou feliz, eu parecia mais disposta, mas poxa vida, eu estava no terceiro dia ainda, TERCEIRO!!! Eu já tava achando muito... povo exigente, rsrsrs...
Após o passeio com a fisioterapeuta, ela me ajudou a sentar na cadeira do quarto e foi embora.
Depois de alguns minutos sentada o curativo não deu conta e acabou vazando um pouco, mas o suficiente pra eu ficar preocupada e bem triste, então toda a evolução que tive no dia foi pro ralo. E então mais uma noite indo dormir chorando.



Resumo técnico do dia:
- Urinei 600ml, menos que o dia anterior o que me deixou preocupada.
- O medico mais uma vez avisou que a creatinina havia caído um pouquinho mais, sem revelar o numero.
- Não senti dor, somente o estômago ainda estava queimando bastante.
- Passei o dia mais sentada que deitada, mas depois que o curativo vazou, perdi a coragem de sentar e fiquei deitada.