segunda-feira, 21 de março de 2016

O transplante - Parte 01.

Screen Shot 03-21-16 at 09.40 PM

Mais uma postagem gigantesca, porém, creio que será útil para quem ainda espera por um transplante. Eu vou dividir o relato em partes que acredito serem as mais impactantes e conforme forem surgindo novidades, eu vou publicando, assim como fazia com meu tratamento na hemodiálise. Ah, não vou poupar detalhes, então, se você é fraco para procedimentos médicos e o que o corpo humano é capaz de fazer, pulem as postagens, rsrs...



27/02 - Dia anterior ao transplante.
Mal sabia eu que seria minha última hemodiálise.
Sempre fui uma pessoa que acredita muito na minha intuição, já tive provas disso durante toda minha vida, várias e várias vezes, então, sempre que bate um sentimento estranho que não consigo explicar, sei que algo esta para acontecer e dia 27/02 não foi diferente. Acordei habitualmente às 03:50 para me preparar para ir para a clinica. Contudo, não amanheci muito legal, estava com uma sensação de tristeza muito forte, lágrimas brotavam nos meus olhos sem eu entender o que estava acontecendo. Simplesmente estava triste e angustiada. Mesmo assim, fui para a hemodiálise tentando mudar o pensamento. Cheguei a comentar com algumas pessoas sobre um sentimento de tristeza sem motivo aparente, inclusive fazendo dois tweets enquanto ainda estava na clinica.



Screen Shot 03-21-16 at 09.30 PM

O dia correu normal, apesar da tristeza, fiz minhas atividades habituais de um sábado qualquer. Fiz minha última refeição às 19:00 e como o Kah não estava em casa (seria esse o sinal? hahahaha), fui dormir para evitar esse sentimento que estava me deixando angustiada.



Dia 28/02 - O grande dia.
Estava dormindo quando escuto o telefone fixo tocando. Peguei o celular para ver que horas eram e vi que era 02:20 da madrugada, aí já sabia que era do hospital. Confesso que antes de ver novamente a cena da minha mãe me passando o telefone, eu fiquei brava e esmurrei o travesseiro. Por algum motivo estava contrariada, não queria ir até o hospital, não queria fazer o transplante. Ainda assim, minha mãe chegou com o telefone e atendi como da primeira vez. Desta vez a principio não senti aquele medo inicial. Quando o médico perguntou se eu aceitava o órgão, eu quis desligar na cara dele e voltar a dormir. Mas então vi em minha mente meus pais, meu irmão, o Kah, minha cunhada e todos os que estavam sempre na torcida para que esse dia chegasse, não consegui negar, fiz a famosa entrevista (igual o relato da primeira vez que me ligaram) e novamente pedi duas horas para chegar até o hospital.



Liguei para o Kah avisando que tinha que correr para o hospital, desta vez pedi para ele não ir até lá, que ficasse em casa, era madrugada e não seria fácil ele aparecer a tempo. Avisei meu irmão, que se colocou à disposição, mas preferi correr da minha forma para o hospital. Em seguida, fiz todo protocolo, separar documentos, banho e táxi. Estava mal humorada e isso para mim era um mal indicio.



Cheguei no Hospital das Clinicas de São Paulo mais ou menos 04:00 com minha parceira inseparável, minha mãe. Neste momento o medo começou bater, se domingo no final da tarde lá é deserto, imaginem em uma madrugada de sábado pra domingo.



E bora subir para o famoso 7º andar. Novamente as mesmas enfermeiras me recepcionam, parecia que estava vivendo um flashback, o mesmo quarto, o mesmo leito e quase os mesmos profissionais. Era como se eu havia parado no tempo desde a primeira tentativa, dado um pause, e então agora, finalmente um play.



Editado (24/03 - 09:51)
Desta vez não precisei fazer hemodiálise, foram somente exames/medicação/centro cirúrgico. A primeira coisa que me perguntaram é se eu ainda urinava e dessa vez já não estava urinando nada, nem o suficiente para fazer um pequeno exame de urina, então me informaram que iriam passar uma sonda de alivio para coletar material para o exame. A sonda de alívio é uma mangueirinha bem fininha que eles inserem pela uretra até a bexiga, no meu caso, eles precisariam inserir ela, injetar soro e coletar esse soro. A primeira tentativa deu errado, então tentaram com uma mais fina e deu certo. Posso dizer que é incomodo, da uma certa queimação devido a anestesia que irrita a uretra, porém, super suportável, pensei que seria pior. Depois veio a famosa saga para conseguir um acesso no braço esquerdo, fui de cara oferecendo os pés, mas elas foram teimosas e após tantas tentativas que nem lembro no momento, conseguiram um acesso. Já para a coleta de 19 tubinhos de sangue, duas garrafinhas de hemocultura (exame que verifica se existe bactérias no sangue) e uma seringa de gasometria (ajuda avaliar a função pulmonar), foram mais algumas picadinhas, depois de alguns poucos tubinhos, a veia estourava e tinham que caçar outra. Honestamente nem estava ligando para as picadas, estava um pouco apática, me sentia de luto, fiquei pensando em meu doador, como se já existisse uma conexão entre eu e ele, não consegui ficar feliz com toda aquela movimentação.
Fim da Edição



Cada médico que entrava me dizia a mesma coisa. "O rim esta muito bom, esta saudável, perfeito, seu doador não tinha nenhum problema de saúde, a creatinina dele é excelente e a biopsia que foi feita esta perfeita". Me sentia mal cada vez que escutava isso. Como pode? Era uma pessoa saudável, no auge da vida?! Sua família, como deve estar agora?



Me senti flutuando sobre toda situação, via as pessoas sorrindo pra mim, estavam todas otimistas, felizes e eu ali, querendo voltar para casa. Estava lutando contra esse sentimento, tentava sorrir, responder as pessoas de forma positiva, mas meu emocional estava abalado. Em nenhum momento me senti feliz, não estava preocupada se a cirurgia iria dar certo, estava tentando entender o que estava acontecendo, porque não correspondia a alegria das pessoas?



As 09:30 da manhã do domingo finalmente me buscaram para o centro cirúrgico, fiquei aliviada, iria dormir e não teria que lidar com esse sentimento. Minha mãe me acompanhou até o 9º andar, onde fica o centro cirúrgico do HC. Pedi para ela ir pra casa, já que a cirurgia era demorada e ela fez que ia embora, mas teimosa, acabou ficando.



Fiquei deitada na maca, então o anestesista se apresentou, me examinou e disse que logo me buscaria para a sala. Vi uma maca passando com uma malinha em cima dela, deduzi que era o rim que iriam transplantar em mim. Uns 10 minutos após a maca passar, me buscaram para o ir para a sala cirúrgica.



Quando cheguei na sala, confesso que achei ela pequena, mas estava comparando ela com a sala cirúrgica onde fui para fazer a fístula no hospital do rim, que é enoooooorme. Em frente a maca que tive que subir, tinha uma mesa e dois médicos sentados, um de frente pro outro, acredito que já estavam fazendo a preparação do rim.



O anestesista colocou um soro com alguma coisa no meu acesso e começou a me dar oxigênio ao mesmo tempo que jogava conversa fora comigo. Enquanto estavam me posicionando na mesa, o anestesista me perguntou no que eu iria sonhar. Como estava parecendo o Cristo Redentor de braços abertos, disse que meu nefrologista havia recentemente vetado eu pular de paraquedas e que a posição que eu estava atualmente estava boa para um salto, então, disse que iria sonhar que pulava de paraquedas, o anestesista riu, dizendo que fui original na escolha e que ele já havia pulado algumas vezes. Após esse pequeno bate-papo eu consegui desejar boa sorte para todos na sala, alguém riu no fundo e disse que eu que iria precisar de boa sorte, enfim dormi.



Acordei 8 horas após a cirurgia. Um receio que tinha é que eu iria me ver sendo desentubada, mas já acordei com avental e respirando sozinha. Acho que acordava e cochilava algumas vezes, até despertar de vez. Logo após despertar, o anestesista perguntou se estava bem, eu disse que estava com frio e instantaneamente comecei a tremer muito. Me cobriram e colocaram algum aparelho nos meus pés que soprava um ar quente bem gostosinho. Fiquei alguns minutos esperando e finalmente vieram me buscar para o quarto. O cirurgião disse que ocorreu tudo bem, que agora eu precisava me cuidar e esperar ver se o rim começava a trabalhar.



Saindo do centro cirúrgico encontro minha mãe e meu irmão. Confesso que fiquei aliviada de ver eles, de não estar sozinha nesse momento. Acho que tentei falar alguma coisa para meu irmão, mas não lembro. Assim que chegamos no quarto, era mais de 18:50, tive que fazer uma força danada para sair da maca para a cama e então foi aí que senti o corte pela primeira vez. Foi um puxão, mas nenhuma dor absurda, só deu um medo danado das minhas entranhas saltarem, rsrsrs. Pedi para minha mãe e meu irmão olharem a sonda para ver se tinha alguma urina e eles me disseram que tinha um pouquinho sim. Confesso que desanimei ao ouvir isso, queria que estivesse vazando já, rsrsrs.



Em seguida me deram algum medicamento e voltei a tremer de frio. Me cobriram novamente e acho que adormeci. Não lembro de me despedir da minha mãe e do meu irmão.



A noite foi um acorda e dorme danado, de tempos em tempos alguém entrava no quarto, verificava alguma coisa e saia. Minha parceira de quarto, a Cris (merece uma postagem só pra ela), deve ter sofrido esse dia com tamanho movimento que foi no quarto.



Irei continuar com as postagens, os próximos dias foram emocionalmente cansativos, eu reagi muito mal no sentido emocional, pretendo relatar tudo porque acho que fui a única a agir assim, mas no final, vocês vão entender que existe uma explicação.

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