sábado, 16 de setembro de 2017

“Bem-vindo ao transplante”

Como fiz a versão falando da hemodiálise e, é uma das postagens mais acessada do Casos Renais, eu resolvi fazer uma versão sobre o transplante. Mais uma vez com detalhes de coisas que eu vivenciei, não é baseado no certo, tudo que aconteceu comigo pode ser bem diferente para qualquer outra pessoa.
O transplante renal é uma cirurgia de grande porte, onde é feita a colocação de um rim saudável, retirado por um doador vivo ou cadáver, que fica alojado na cavidade abdominal do paciente enfermo, deixando ele geralmente na fossa ilíaca direita ou esquerda. Quem definirá isso será o cirurgião.




A primeira coisa que preciso escrever aqui infelizmente, é que o transplante renal não é cura. Porém, é o melhor tratamento que temos nos dias de hoje para quem já perdeu mais de 90% da função renal. E porque não é cura? Por dois motivos: O primeiro é que você irá precisar tomar remédios (imunossupressores), que podem causar alguns efeitos colaterais. Esses remédios possuem a função de abaixar sua imunidade para que seu corpo não agrida o órgão transplantado, confundindo o organismo para que ele perceba o órgão como próprio do corpo e não o contrário. O segundo é a consequência do primeiro, mesmo tomando os medicamentos, a medicina ainda não descobriu uma forma do seu corpo se adaptar 100% com o enxerto, então o transplante não é eterno, apesar de estar subindo muito o tempo de vida do enxerto, ainda é um organismo desconhecido dentro do seu corpo o transplante tem um tempo de vida útil, que atualmente fica na média de 15 anos, podendo em alguns casos variar para mais e para menos. Devido a essa condição, o transplante é percebido como um tratamento continuo assim como dialise peritoneal/hemodiálise, só que com mais qualidade de vida.

O único caso de transplante que pode durar por toda uma vida é com gêmeos univitelinos (idênticos), já que possuem o mesmo grupo de DNA.

Bom, vamos para conduta.

Geralmente quando chamam você para o transplante, após eles oferecem e você aceitar, eles perguntam se você está com febre, ou se teve febre recente, perguntam quando foi sua última dialise, porque dependendo de quanto tempo faz, eles podem pedir que você dialise antes de transplantar. E te dão instruções para ir até o hospital, que setor procurar para realizar a internação.
Chegando no hospital, é importante ir com acompanhante para que ele cuide das papeladas da internação, enquanto a equipe de enfermagem começa os preparativos para o transplante com você.
A primeira coisa que eles fazem é um questionário onde irão avaliar o risco do paciente, pelo que percebi no HC, ele vai de 1 a 5, sendo o 5 o pior. Geralmente os renais ficam no mínimo na categoria 2, por causa do acesso (cateter ou fistula) e da dialise que pode causar queda de pressão, etc.
Eles tiram sua pressão, sua glicose e sua temperatura.
Te dão um avental e mandam você para o banho. Da primeira vez que fui chamada, eles pediram para eu fazer a tricotomia, já na segunda não pediram, porém, em ambas eu já tinha feito em casa.
Feito o questionário e de banho tomado, essa próxima parte pode variar, como eu tenho duas experiências, essa parte foi diferente uma da outra. Da primeira vez eles colheram exames de sangue, vários, e já me prepararam para ir fazer 2:30 de hemodiálise. Já na segunda vez eu fiz os exames de sangue e fui para a próxima etapa, não precisei ir para a dialise.
Eu também tive que ir fazer um RX e em seguida um eletrocardiograma e, após isso, a enfermeira isola o braço se existe fistula e te encaminha para o centro cirúrgico.
Já no centro cirúrgico é mais rápido, você vai para a mesa e eles te preparam colocando soro para correr, eu fiquei em posição de cristo redentor, com os braços abertos, eles orientam que irão injetar um remédio para você dormir e enquanto isso te dão uma máscara de oxigênio para enfim apagar e não lembrar de nada quando acordar.
Abaixo eu coloco o esquema do transplante, igual eu fiz com a vesícula, para ficar mais fácil de entender.



Esse foi o esquema quando saí da cirurgia.
- Implantação de um acesso central no pescoço.
- O acesso venoso já havia sido colocado quando foi coletado os exames de sangue.
- A incisão nada pequena, no meu caso foi do lado direito e com modestos 21 pontos.
- E a sonda vesical.
- Eu não precisei, mas, muitos saem também com drenos próximos a ferida cirúrgica.

Cada hospital tem um protocolo, no HC, no quinto dia pós cirurgia eles tiram a sonda vesical (não dói!), o acesso central é retirado próximo ao dia que terá alta e você recebe alta somente após 3 quedas seguidas da creatinina. Comigo eu entrei na cirurgia com a creatinina acho que 10 ou 11, sai da cirurgia com ela 7, em dois dias caiu para 4 e tive alta com ela 3.

Deixo abaixo uma animação da cirurgia do transplante renal para quem se interessar, não é uma cirurgia real, é apenas animação, então não dá aflição ;)




20 dicas que só um paciente saberia dar (transplante doador cadáver):

Não sei que dicas poderia dar para um transplante renal de doador vivo, já que tudo é agendado previamente, as preparações são bem mais fáceis, acredito.

1) Assim que receber a ligação do hospital te chamando, NÃO COMA NADA! Um dos principais motivos do paciente passar mal no pós-operatório é o fato do estomago não estar completamente vazio. Eu tive sorte e fiquei com mais de 12h de jejum, já que me chamaram as 2:40 da madrugada e minha última refeição tinha sido por volta das 19:00 e só operei depois das 10:00 da manhã. Não tive enjoo/vômitos e consegui comer normalmente logo após descer para o quarto. Eu fiz duas cirurgias com anestesia geral e as duas foram com jejum bem grande e, eu não apresentei nenhum sintoma depois que as cirurgias acabaram.

2) Esteja sempre com itens de higiene reservado e roupas intimas novas deixadas de reserva para se for chamado um dia. Não tem coisa pior que depender de outra pessoa para definir essas coisas para você. Tendo sempre essas coisinhas separadas facilita muito a sua estadia no hospital no seu pós-operatório.

3) Não use as pessoas que estão internadas com você como exemplo das coisas que irão acontecer com você, cada organismo reage de um jeito. Se tiver sorte, prepare-se para ganhar novos irmãos durante essa estadia, é um momento realmente onde todos estão na mesma situação, então os veteranos sempre ajudam os novatos. Procure fazer sua parte também.

4) Questione. Questione. Questione. Se você tem dúvidas, aproveite a visita dos médicos e discuta, se precisar, anote e quando o médico aparecer você pode tirar suas dúvidas sem esquecer.

5) Procure ser informado desde já, pergunte os remédios que está tomando, se ouvir um termo técnico que desconhece peça “tradução”, rs.

6) Não aceite dor! Você está dentro de um hospital, é o único lugar que você pode e deve ficar confortável fisicamente, ainda mais nesse momento. Só que também não abuse dos medicamentos, só peça se existir dor, não maximize sintomas, isso pode prejudicar a adaptação do seu corpo com o enxerto.

7) Se tiver sorte você vai ter comida boa no hospital, como não foi meu caso, eu fazia um escambo com minha colega de quarto, as frutas que ela não gostava, ela me cedia (eu vivi de fruta praticamente a internação inteira), e eu dava para ela bolachas e torradas que sobravam para mim. Faça amigos, rs.

8) Se esforce para sair da cama o mais rápido possível. Caminhar incentiva o rim a produzir urina e os médicos enxergam isso como um ponto ideal para sua alta, enquanto você não estiver andando normalmente você não terá alta.

9) Não abuse nas visitas, tem pacientes que querem uma comitiva visitando e isso atrapalha o trabalho da enfermagem e também pode atrapalhar o(s) colegas de quarto, procure ter bom senso. Além disso, quanto mais pessoas no quarto maior o risco de contaminação.

10) Não tome nenhum medicamento que não seja o que estejam te dando na internação. Salvo se você toma algum especifico que o hospital não tem e o médico autorizar.

11) Se tiver vontade de tossir ou espirrar pegue o travesseiro e abrace, o impacto no seu abdome será menor e irá fisgar menos os pontos.

12) Algo que ninguém diz é que os primeiros dias você vai soltar muitos gases, acho que o fato deles mexerem no abdome dá alguma coisa, pelo menos comigo foi assim. Entenda se seus colegas estiverem nessa situação, não julgue se você estiver “numa boa”.

13) Aproveite as visitas, passa tão rápido e o hospital não é o lugar mais acolhedor que existe, então sempre que receber alguém, curta e compartilhe sua experiência, com certeza você vai ter boas histórias para contar.

14) Seja paciente. Na semana que fiquei internada eu fiquei em uma angustia louca, queria saber a evolução do transplante a todo momento, dava o horário do remédio eu começava a ficar nervosa quando atrasava uns minutinhos, na loucura que isso poderia prejudicar.

15) Siga muito as orientações e dicas da equipe de enfermagem, eles lidam com pacientes transplantados todos os dias, eles possuem mais experiências que os médicos, já que a maioria dos médicos estão ainda se formando ou não vive só de transplante. A equipe de enfermagem vive só de pacientes transplantados, então escutem a equipe, as dicas deles são as melhores.

16) Se possui amigos na dialise, dê notícias, não tem nada mais incentivador para um renal crônico em dialise do que saber de um transplante de alguém próximo bem-sucedido. Geralmente nas clinicas são mais compartilhados os casos ruins, porque eles geralmente voltam para a clínica, então muitos criam um medo do transplante, então ajude a fazer a diferença e dê seu relato.

17) Beba água até cansar. Tem coisa melhor para colocar um Rim para funcionar? Acho que não.

18) Da mesma forma da dialise, não omita sintomas. Qualquer dor, desconforto, qualquer detalhe que não é normal em você, você precisa compartilhar com seus cuidadores, claro que não precisa dizer que tem um corte na barriga que antes não tinha, rs. 

19) Reserve um momento do seu dia para pensar em seu doador e sua família. Geralmente a partida do doador cadáver é traumática, já que precisa acontecer a morte cerebral e os outros órgãos estarem funcionando, então, pense neles com carinho, abrace-os em pensamento, isso pode não ajuda, mas, também não atrapalha e é um gesto de conexão sua com seu doador.

20) Aproveite a nova vida, só que tenha juízo. Tome os remédios sempre no mesmo horário, encare as consultas como oportunidade de espalhar e obter informações dos colegas que lá também estão, não reclame pela demora no atendimento, você foi presenteado, o resto é resto.



Dicionário: 

Diurese: É a medição da urina de uma pessoa.
Enxerto: É o nome dado ao órgão transplantado.
Imunossupressor: São medicamentos que abaixam a imunidade e evitam que o nosso corpo tente combater o rim transplantado.
Sonda vesical: É uma mangueirinha fina que colocam na uretra que alcança a bexiga, assim a urina fica armazenada em uma bolsa de plástico, onde de tempos em tempos a equipe de enfermagem esvazia para medir sua diurese.
Tricotomia: Depilação dos pelos em qualquer parte do corpo. No caso do transplante eles dizem para você imaginar uma bermuda e tirar todos os pelos que ficariam na área da bermuda.
TX: é a sigla para a palavra Transplante, é muito usada em prontuários.

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

1 ano e 6 meses...

Olá pessoal!
Acho que fazer atualizações semestrais sobre o transplante já está de bom tamanho, então, a cada 6 meses eu apareço aqui para dar uma renovada na minha evolução. Claro que irei colocando outros assuntos aqui que envolvem esse 'mundo renal'. Então vamos para as novidades.

Após a pielonefrite que tive na virada do ano minha creatinina nunca mais foi menor que 1.1, fica variando entre 1.10 e 1.19, eu fico triste porque foi uma única infecção e conseguiu atrapalhar toda evolução que eu estava tendo. Outra coisa foi minha taxa de filtração, a dos primeiros 6 meses estava 59%, a de um ano estava 56% e agora está nos 54%, ela vem caindo e eu estou lutando muito para ela pelo menos parar nesses 54%.

Estou há 7 meses esperando para fazer uma densitometria óssea. Já tentei 2x, mas, a máquina estava quebrada, só quero ver se em setembro eu consigo. A primeira que fiz pós transplante estava normal.

>> #MomentoMulher <<

Bom esse assunto é mais para mulheres mesmo, então, sempre que falar sobre assuntos femininos irei separar no tópico deste jeito.

Na época que fazia hemodiálise minha menstruação desregulou monstruosamente, ao ponto de eu ficar alguns meses sem nem ver a cara dela. Assim que transplantei, menstruei no quarto ou quinto dia pós tx (não lembro, só sei que ainda estava internada), e depois disso ela como mágica regulou e vinha todo mês NO MESMO DIA!!! Pois bem, eu sempre me cuidei, então fui até o querido ginecol. para um checkup anual, já estava quase dando um ano desde a última vez que fui dar uma olhada nesse assunto.

Por coincidência claro, foi só começar a ver esse assunto que eu desregulei toooodaaaaa. E aí meu mundo caiu, os hormônios bagunçaram, eu tive uma queda acentuada no cabelo que me deixou desesperada, fiquei uns 5 meses comprando tudo que era produto e vitamina (com autorização/indicação dos médicos, claro), gastei uma fortuna, porém, não teve salvação, tive que cortar e MUITO meu cabelo. E mais uma vez mágica, assim que cortei o cabelo começou a crescer e hoje já está quase normal. Estou levando em consideração que levei outra anestesia geral e essas danadas tendem a dar uma queda braba de cabelo, só que temporária, então estou tranquila porque sei que é questão de tempo para melhorar de vez.

Os cabelos melhoraram... O humor, a pele e a menstruação... NÃO! Resultado: Eles indicaram a colocação do DIU Mirena, que é aquele DIU que possui hormônios, porém, como ele não vai para corrente sanguínea os efeitos colaterais são menores. O que está acontecendo é que eles só colocam esse bendito quando estamos menstruada e somente de terça e quinta, e de birrinha minha menstruação vem sexta ou sábado e dura 3 dias, ou seja, não pego nem terça e nem quinta!!! Já estou tentando colocar esse DIU há 3 meses e sempre essa "pegadinha do malã" comigo, rsrsrsrs, eu mesmo me atrapalho.

>> #FimMomentoMulher <<

Uma coisa que já teria que ter comentado é que eu fiquei mais de sete anos na hemodiálise, no entanto, parece que fazem uns 30 anos que passei por isso, é muito louca essa sensação, parece que foi com outra pessoa e eu só fiquei sabendo. Como é fácil esquecer momentos desconfortáveis.


Grande abraço para todos.

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Um mês depois sem vesícula...

Olá pessoal!
Hoje completei um mês que tirei a vesícula.
Já retornei ao médico e por enquanto está tudo bem clinicamente falando. Eles coletaram amostras do tecido da vesícula para exames, que segundo eles, é procedimento padrão lá no HC, só que ainda não saiu o resultado, então, só retorno ao cirurgião daqui 6 meses.

Eu já disse aqui em algum lugar que minha cicatrização é bastante ruim, sempre formam queloides nas incisões cirúrgicas, porém, para minha alegria, desta vez minhas cicatrizes estão maravilhosas, acredito que daqui uns meses vai ser até difícil perceber que foi feito alguma coisa. Acho que o maior responsável por isso foi o fato de terem colado ao invés de darem os costumeiros pontos.

Relacionado a minha alimentação a única intolerância que percebi foram amendoins, as duas vezes que comi foi uma correria danada para o banheiro. Tirando esses dois episódios do amendoim, continuei sem enjoo, azia, diarreia, dor, etc.

Muitas mulheres têm medo da incisão que fazem no umbigo, li alguns relatos onde o umbigo fica meio deformado. Comigo não aconteceu absolutamente nada, não inchou, não ficou com hematomas e hoje já cicatrizado, vejo que não mudou em nada a anatomia dele.

Uma coisa que eu viciei antes de ir para o centro cirúrgico, foi ver no youtube vídeos abrindo várias vesículas, tem bastante vídeos e são bem interessantes, tem alguns que sai uma pedra só, tem outros que saem várias e teve um em particular que saiu praticamente a vesícula inteira empedrada em uma única só pedra, que partiu no meio e virou duas. Não achei nenhum vídeo com pedras alaranjadas iguais as minhas :/

Abaixo segue o esquema das incisões.



Bom, isso foi o que eu encontrei após sair da cirurgia.
A incisão A foi por onde a vesícula foi retirada. As incisões B e C foram por onde as "ferramentas" entraram para cortar, suturar, etc. E a incisão D, no umbigo, foi por onde eles injetam o famoso gás que muitas pessoas temem por ter a fama de causar o maior desconforto da cirurgia, e também a câmera por onde eles visualizavam toda a cirurgia. Eu também estava com a sonda vesical (retirada algumas horas depois da cirurgia e NÃO DOEU, rsrsrs ), e também um acesso venoso no braço esquerdo para aplicar medicamentos direto na veia.



É isso aí, qualquer dúvida é só perguntar.